Percebendo a insatisfação popular com a atual gama de
políticos, os militares começam a pensar em ocupar o poder, mais uma vez! Na
internet já é possível se ver grupos e páginas de pessoas que estão começando a
se organizar para que este tipo de coisa venha a acontecer. E para quem acha
esta história absurda, este texto vai mostrar que em 1964 nosso país viveu algo
parecido com o que vivemos hoje, com uma boa parte da população insatisfeita
com os seus líderes políticos. Por isso, antes de começar a discorrer mais
sobre o que está acontecendo hoje, quero chamar aqui um pouquinho de uma
história do Brasil que não é contada em nossos livros.
Quando estudamos história no colégio, sempre ouvimos falar
mal sobre o “Golpe de 64”, mas pouca gente sabe que durante anos ele foi
chamado de “Revolução de 64” e que ainda hoje é assim chamado nos livros de história
das escolas militares. A diferença pode ser apenas uma palavra, mas esta
palavra muda muita coisa. Um golpe de estado é dado de forma arbitrária de um
grupo de pessoas contra o poder estabelecido, já uma revolução é algo que
possui apoio popular e nasce do povo. Na verdade, o que ocorreu no Brasil de
1964 está justamente situado na linha limítrofe entre o que seria um golpe e o
que seria uma revolução.
Uma parcela significativa do povo brasileiro estava
insatisfeita com o rumo do país nas mãos do então presidente eleito
democraticamente João Goulart. E foi contra ele e sua política que em março de
1964 foi-se organizada a “marcha da família”, em São Paulo, que conseguiu
reunir incríveis 500 mil pessoas nas ruas! Em termos de comparação, é 5 vezes
mais gente do que vimos no último dia 17/06 nas ruas do Rio de Janeiro. Poucos dias
depois desta manifestação, o Brasil quase entrou em uma guerra civil, tenso deu
exercito dividido em dois, sendo um dos lados apoiado pela aeronáutica e o
outro pela marinha. Houve uma enorme movimentação de tropas, com soldados
saindo de diversas partes do país rumo ao sul, onde o então presidente estava
refugiado e protegido por parte do exército e aeronáutica. Por fim, para não
ver sangue brasileiro derramado por outro brasileiro, Goulart decide ceder e
entregar seu cargo.
Nos primeiros dias de abril daquele ano, cerca de 1 milhão
de pessoas foram às ruas do Rio de Janeiro fazer o que ficou conhecido como a “marcha
da vitória”, para saudar a queda do antigo presidente e a ascensão do novo
regime. O que vem depois a maioria de nós já conhece. Indignados com a política
de privatização da educação pública (que até então era de excelente qualidade)
os estudantes vão às ruas pedir o fim da ditadura e das políticas de privatização
da educação. Todos os manifestos eram repreendidos com extrema violência,
gerando prisões e até mortes. Até que um dia, estudantes de uma universidade
estavam protestando no restaurante da instituição contra o aumento do valor das
refeições, quando a polícia foi chamada e o estudante Edson Luís de Lima Souto,
de apenas 17 anos, acabou levando um tiro do próprio comandante da PM! Este episódio
causou a ira dos estudantes e a indignação da população brasileira como um
todo, que foi às ruas em diversos estados e acabou sendo massacrada pelas
polícias, como nós bem sabemos.
Mas em junho daquele ano de 1968 o povo conseguiu fazer uma
manifestação forte no centro do Rio de Janeiro, iniciando-se na Cinelândia e se
espalhando por diversas ruas... foi uma manifestação tão grande quanto a que
vimos no último dia 17, com mais de 100 mil pessoas nas ruas. Este movimento
ficou conhecido como a “Passeata dos 100 mil”. E foi por conta desta passeata
que, em dezembro daquele ano, foi-se decretado o AI-5, o Ato Institucional que
endureceu a repressão e deu início aos anos mais obscuros da ditadura.
Conhecer os rumos que a história levou nos leva a refletir
melhor sobre o rumo de para onde estamos levando nosso país nos tempos
atuais... no próximo ano, ano de Copa e ano de eleição para presidente e
governador, também será o ano em que se contará 50 anos do início da ditadura
no país. Início este que começou com manifestações populares demonstrando insatisfações
com o regime vigente.
É preciso se ter em mente que, assim como em 1968 se
reuniram no centro do Rio de Janeiro 100 mil pessoas que protestavam contra a
violência policial, também em 2013 nós fizemos a mesma coisa, com o mesmo
número de pessoas, no mesmo local, pelo mesmo motivo. Em 1968, apesar da
Passeata dos 100 mil ter sido um sucesso, o povo brasileiro sofreu com o efeito
chicote que os governantes insistiram em adotar contra nós. Em 2013, apesar dos
movimentos populares de 17/06/2013 terem sido um sucesso, hoje já estamos vendo
nascendo uma contra-manifestação que pede a volta dos militares ao poder... e,
gente, NÓS NÃO PODEMOS PERMITIR ISTO!
Longe de ser um texto com conteúdo desmotivacional sobre
estas manifestações que agora fazemos país afora, é um texto que nos pede para
estarmos alertas contra o efeito chicote. É preciso não baixar a guarda mesmo
quando o calor da batalha passar, porque nos conta a história que o efeito
chicote pode ser pesado e doloroso! Por isso é preciso nos mantermos unidos e
alertas, é preciso termos sempre o apoio da mídia nacional e internacional
sobre as nossas causas, é preciso que estejamos prontos para sair às ruas
quantas vezes forem necessárias, e que nos unamos sempre, todas as vezes que
virmos qualquer manifestação para a volta dos militares ao poder, para a volta
da repressão ao povo! Porque este povo e este país não podem incorrer no mesmo
erro mais uma vez!

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